Práticas abusivas no setor bancário deixam de causar estranhamento e acendem alerta jurídico

Cobranças excessivas, pressão permanente por metas e cultura do medo se tornam rotina em bancos e contribuem para o adoecimento silencioso de milhares de trabalhadores no país.

A rotina de muitos bancários brasileiros é marcada por cobranças constantes, metas agressivas e uma pressão que raramente se encerra ao fim do expediente. O que antes poderia ser identificado como abuso passou, aos poucos, a ser tratado como parte “natural” do trabalho no setor financeiro. Essa normalização preocupa especialistas e tem refletido diretamente no aumento de ações trabalhistas e afastamentos por adoecimento mental.

Dados do Ministério da Previdência Social indicam que os transtornos mentais e comportamentais já estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no Brasil. Segundo o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, doenças como ansiedade, depressão e síndrome de burnout registraram crescimento expressivo na última década, com o setor bancário figurando de forma recorrente entre os mais afetados.

A digitalização acelerada dos serviços financeiros, aliada a modelos de gestão baseados em performance extrema, intensificou a cobrança sobre os trabalhadores. Metas consideradas inalcançáveis, comparações públicas de desempenho, mensagens fora do horário de trabalho e ameaças veladas de desligamento passaram a integrar o cotidiano de muitos profissionais. O problema, segundo especialistas, não é apenas a existência dessas práticas, mas o fato de elas terem deixado de causar estranhamento.

Para a advogada trabalhista Juliane Garcia de Moraes, especializada na defesa de bancários, a banalização do abuso cria um cenário perigoso. “Quando o excesso vira regra, o trabalhador passa a acreditar que o sofrimento faz parte da função. Isso não torna a prática legal, apenas dificulta a identificação do abuso e posterga a busca por ajuda”, explica.

Esse processo de normalização contribui para o chamado adoecimento silencioso. Muitos bancários seguem trabalhando mesmo diante de sintomas claros de esgotamento físico e emocional, como crises de ansiedade, insônia, dores constantes e queda de rendimento. Sem afastamento formal ou diagnóstico imediato, o sofrimento se prolonga e tende a se agravar.

Do ponto de vista jurídico, a naturalização dessas condutas não afasta a responsabilidade das empresas. A Justiça do Trabalho tem analisado cada vez mais o contexto organizacional, considerando não apenas episódios isolados, mas a cultura interna das instituições. “O assédio nem sempre aparece de forma explícita. Muitas vezes ele está na repetição de práticas que violam a dignidade do trabalhador e comprometem sua saúde”, afirma Juliane.

Especialistas alertam que, além do impacto humano, esse modelo de gestão representa um risco jurídico crescente para os bancos. Processos envolvendo assédio moral, adoecimento ocupacional e danos morais têm aumentado, impulsionados por provas documentais, relatos consistentes e pelo reconhecimento de que a pressão excessiva pode configurar violação de direitos trabalhistas.

A discussão ganha ainda mais relevância em um cenário em que saúde mental e responsabilidade corporativa estão no centro do debate público. Para os trabalhadores, reconhecer que determinadas práticas não são normais é o primeiro passo para buscar orientação. Para as empresas, rever modelos de gestão deixou de ser apenas uma questão de imagem e passou a ser uma necessidade jurídica e social.

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