Denúncia de Lavagem de ouro: Greenpeace Brasil denuncia fraudes em permissões de garimpo na Amazônia e revela esquema bilionário

CulturaMeio Ambiente3 hours ago

(Flagra de garimpo ilegal na zona de amortecimento do Parque Nacional do Rio Novo, Pará. A área está próxima a uma das localizações com PLG analisada pelo relatório “Lavagem de ouro na Amazônia: anatomia de uma fraude”. Maio de 2026. Laís Modelli / Greenpeace)

Relatório mostra como Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) são utilizadas para a comercialização de ouro extraído ilegalmente da Amazônia, impactando Terras Indígenas e áreas protegidas;

Análise cruzou dados históricos da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) com imagens de satélite e de sobrevoos realizados pelo Greenpeace Brasil;

Acesse o relatório “Lavagem de ouro na Amazônia: Anatomia de uma fraude

Um novo relatório do Greenpeace Brasil, publicado nesta segunda-feira (01), mostra como a Permissão de Lavra Garimpeira (PLG) – instrumento que atesta a procedência do ouro – vem sendo utilizada para “lavar” o minério extraído ilegalmente na Amazônia, aproveitando-se de falhas graves na fiscalização da Agência Nacional de Mineração (ANM) e da dispensa de pesquisa mineral prévia. A organização alerta que tal sistema fraudulento vem permitindo, há anos, a expansão do garimpo ilegal na Amazônia, inclusive sobre Terras Indígenas e Unidades de Conservação.

Além de descrever a dinâmica da “lavagem” por meio da PLG e os caminhos usados para que o ouro ilegal seja inserido no sistema financeiro global como um ativo “limpo”, o relatório “Lavagem de ouro na Amazônia: anatomia de uma fraude” também revela um esquema bilionário: entre 2018 e março de 2026, 98 PLGs com irregularidades permitiram a comercialização de 25,3 toneladas de ouro, que, em valores atualizados, renderiam R$ 18,4 bilhões (entenda abaixo).

“Estamos falando de um esquema de lavagem de ouro que, há décadas, utiliza um instrumento legal para inserir no mercado nacional e internacional o ouro extraído ilegalmente de Terras Indígenas e Unidades de Conservação na Amazônia. Por isso, conferir total transparência para a Permissão de Lavra Garimpeira e cobrar uma fiscalização mais robusta da Agência Nacional de Mineração não é mais uma opção, mas uma necessidade”, afirma o coordenador da frente de Povos Indígenas do Greenpeace Brasil, Danicley de Aguiar.

Esquema bilionário

Por meio da análise de dados históricos da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) e da base de dados de processos minerários da Agência Nacional de Mineração, bem como de imagens de satélite e de sobrevoos de validação, o Greenpeace Brasil analisou 187 processos minerários registrados entre 2018 e março de 2026. Destes processos, foram identificadas 98 Permissões de Lavra Garimpeira com irregularidades, que, juntas, resultaram na comercialização declarada de 25,3 toneladas de ouro no período analisado, avaliada em cerca de R$ 18,4 bilhões (o cálculo foi realizado em valores atualizados do ouro 24k para a primeira quinzena de maio de 2026, equivalente a R$ 728,17/kg).

Vale destacar o momento em que esta pesquisa é publicada: um contexto de crise e instabilidade política geradas por guerras que têm elevado o preço do ouro no mercado internacional.

“O avanço do garimpo na Amazônia, em especial sobre Terras Indígenas e Unidades de Conservação, deve ser analisado dentro de um contexto amplo: é preciso conectar instabilidade geopolítica com constante valorização do ouro nos mercados internacionais, mas também com o fato dessa atividade encontrar no Brasil um ambiente institucional particularmente permissivo, em que fragilidades regulatórias e de fiscalização permitem que o ouro ilegal seja incorporado à economia global com aparência de legalidade”, alerta Aguiar.

Casos: garimpos fantasmas e garimpos em escala industrial

Dentre as 98 PLGs com irregularidades identificadas, a pesquisa traz em detalhes de oito casos, que podem ser divididos em dois tipos:

Garimpos fantasmas: áreas que declaram toneladas de produção de ouro, mas imagens de satélite e sobrevoos mostram que a floresta está intacta, ou com pouca atividade garimpeira, demonstrando que o ouro declarado pela PLG não veio daquela área;

Garimpos em escala industrial: arranjos em que múltiplas PLGs, concedidas na mesma área, são exploradas de modo a sugerir uma única operação. Isso permite escapar do licenciamento ambiental mais rigoroso e das regras aplicáveis à mineração industrial, além de facilitar a lavagem de ouro.

Um dos casos ilustra bem o esquema: uma PLG em Itaituba, no Pará, com apenas 1,08 hectares, registrou a comercialização de 776,68 kg de ouro entre 2018 e 2020. Imagens de satélite e de sobrevoo do Greenpeace Brasil, no entanto, mostraram a área completamente preservada, sem qualquer sinal de atividade garimpeira, o que demonstra que o ouro declarado não foi retirado desta área. O índice de produtividade calculado, de 719,15 kg por hectare, é considerado extremo segundo os critérios do próprio estudo.

(Garimpo fantasma na Antônia da Silva Santos Galvão – Itaituba (PA) | Foto: Greenpeace Brasil)

Conclusões e recomendações do Greenpeace

Instituída em 1989 com o objetivo de regulamentar e controlar a atividade garimpeira, a PLG acabou capturada por esquemas ilícitos de lavagem de ouro na Amazônia. Na prática, é o próprio titular da PLG quem declara quanto ouro extraiu no local, e todo a quantidade pode ser aceito como real — não há, portanto, nenhum parâmetro técnico confiável para avaliar o potencial produtivo real das áreas concedidas por PLGs, o que dificulta a rastreabilidade do metal e abre espaço para que o ouro extraído de Terras Indígenas e de outras áreas protegidas seja registrado como se tivesse origem legal.

A investigação conclui, assim, que a ausência de pesquisa mineral prévia para a permissão de lavra garimpeira, aliada à fragilidade da fiscalização da Agência Nacional de Mineração (ANM), abriu espaço para que áreas sem qualquer atividade minerária comprovada fossem utilizadas para a lavagem de ouro extraído ilegalmente.

“A dispensa de pesquisa mineral dificulta uma análise mais precisa dos impactos ambientais inerentes à atividade garimpeira e contribui para que a Permissão de Lavra Garimpeira (PLG) seja utilizada como instrumento de lavagem de ouro”, explica Danicley de Aguiar.

O estudo também aponta que, apesar da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2025, que derrubou a chamada “presunção de boa-fé” no comércio de ouro, os mecanismos de lavagem continuam operando. Até então, as distribuidoras autorizadas pelo Banco Central a comprar ouro podiam aceitar como verdadeiras as informações fornecidas pelos vendedores, sem necessidade de verificação rigorosa da origem do metal. Para o Greenpeace Brasil, a decisão do STF representou um avanço importante, mas insuficiente diante das lacunas que ainda persistem no sistema de rastreabilidade do ouro.

O Greenpeace Brasil defende uma reformulação profunda do sistema de controle da cadeia do ouro no país. Entre as principais recomendações que constam do relatório, estão:

● Exigência de pesquisa mineral prévia antes da concessão de PLGs, com base no artigo 6º da Lei 7.805/89;

● Identificar e cancelar imediatamente PLGs que tenham efetuado o recolhimento da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), mas não apresentem evidências claras de exploração.
Segundo a organização, combater o garimpo ilegal exige não apenas aprimorar mecanismos regulatórios, mas também enfrentar a pobreza estrutural e promover modelos econômicos capazes de conviver com a floresta, respeitar os direitos humanos e superar a pobreza.

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