Dr. Gustavo Becker: a inteligência artificial entra de vez no centro cirúrgico

Saúde3 hours ago

À frente do 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, médico reúne especialistas do Brasil e do exterior em Balneário Camboriú para discutir robótica, cirurgias ao vivo e uma medicina cada vez mais precisa

A inteligência artificial deixou de ocupar apenas apresentações sobre o futuro da medicina. Já participa da análise de exames e imagens, auxilia na organização de dados clínicos, avança na endoscopia e começa a interferir na maneira como médicos planejam procedimentos e tomam decisões. Na coloproctologia, essa transformação tecnológica também chegou ao centro das discussões.

Foi sob essa perspectiva que Balneário Camboriú, em Santa Catarina, recebeu, de 24 a 26 de setembro, o 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia (CBCP 2026). Presidido pelo coloproctologista Dr. Gustavo Pereira Becker, o encontro reuniu centenas de especialistas brasileiros e estrangeiros e levou ao debate algumas das mudanças que devem redesenhar a especialidade nos próximos anos.

Pela primeira vez realizado em Santa Catarina, o congresso contou com cerca de 20 professores internacionais. Cirurgia robótica, inteligência artificial, procedimentos minimamente invasivos, oncologia colorretal, doenças inflamatórias intestinais, distúrbios funcionais e do assoalho pélvico e doenças benignas estiveram entre os assuntos da programação.

“Receber o 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia em Santa Catarina, pela primeira vez em nossa história, tem um significado muito especial. Nosso principal objetivo foi construir um congresso que preservasse a tradição e a qualidade científica da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, mas que, ao mesmo tempo, tivesse um olhar muito forte para o futuro”, afirma Becker.

Esse futuro passa inevitavelmente pela inteligência artificial. Na avaliação do médico, discutir a tecnologia apenas como uma promessa distante já não corresponde à realidade encontrada nos hospitais, centros de pesquisa e consultórios.

“A inteligência artificial deixou de ser apenas uma perspectiva futura. Ela já está presente na medicina, seja no auxílio à análise de exames e imagens, na endoscopia, na organização de dados clínicos, na pesquisa científica, na educação médica e até no planejamento e suporte à tomada de decisão”, explica.

A adoção dessas ferramentas, no entanto, acrescenta questões que vão além da capacidade tecnológica. Segurança, limites de utilização e responsabilidade médica também precisam acompanhar a velocidade da inovação. Para Becker, a dimensão da mudança não deve ser subestimada. “Provavelmente estamos diante de uma das maiores transformações da medicina nas próximas décadas.”

A cirurgia passa pelo mesmo processo. Laparoscopia e robótica já conquistaram espaço em diferentes procedimentos colorretais, enquanto novas tecnologias apontam para intervenções progressivamente mais precisas e personalizadas.

“O próximo passo provavelmente não será apenas operar por incisões menores, mas utilizar tecnologia para aumentar precisão, previsibilidade e segurança”, afirma.

No CBCP 2026, parte desse conhecimento saiu das apresentações e foi diretamente para a prática. Os cursos avançados realizados antes do congresso incluíram 12 cirurgias ao vivo, permitindo aos participantes acompanhar não somente a execução das técnicas, mas o raciocínio dos médicos diante das situações encontradas durante procedimentos reais.

“O participante observa o planejamento, os passos técnicos, as dificuldades, as adaptações e a forma como o cirurgião responde às situações que surgem durante o procedimento. Quando isso é realizado dentro de critérios rigorosos de segurança e ética, torna-se uma ferramenta extremamente rica para educação cirúrgica e para discussão entre profissionais experientes”, diz Becker.

A organização procurou também reduzir o modelo tradicional baseado em sucessivas palestras. Sessões interativas, discussões abertas, atividades de aproximação entre professores e congressistas e recursos de gamificação foram incorporados à programação. “Queremos que o participante seja menos espectador e mais parte do congresso”, resume.

Apesar da presença ostensiva da tecnologia, Becker chama atenção para um risco: transformar inovação em protagonista de uma especialidade cujo centro continua sendo o paciente.

Por isso, a programação manteve espaço para doenças inflamatórias intestinais, alterações do assoalho pélvico, distúrbios funcionais e doenças benignas, condições presentes diariamente nos consultórios.

“Porque a coloproctologia é muito maior do que a cirurgia. O nosso paciente não pode ser reduzido a uma técnica ou a uma plataforma tecnológica”, afirma.

A participação de especialistas estrangeiros acrescentou outra dimensão ao encontro. Para Becker, colocar profissionais de diferentes países diante das mesmas questões permite comparar protocolos, técnicas e realidades médicas, ao mesmo tempo que abre espaço para apresentar internacionalmente o trabalho desenvolvido no Brasil.

“Esse intercâmbio é fundamental. A medicina evolui rapidamente e nenhum país pode trabalhar de forma isolada”, diz.

A aproximação entre gerações também esteve entre as preocupações do congresso. Residentes e médicos em início de carreira tiveram espaços de interação com especialistas mais experientes, com discussões de casos e contato direto com professores nacionais e internacionais.

No fim, apesar de inteligência artificial, robôs e novas plataformas ocuparem parte importante do debate, Becker estabelece um parâmetro mais simples para medir o resultado do encontro.

“Gostaria que cada participante retornasse para casa com pelo menos uma ideia capaz de melhorar efetivamente o cuidado de seus pacientes.”

A ideia pode surgir de uma tecnologia, de uma evidência científica, de uma técnica cirúrgica ou simplesmente de uma maneira diferente de analisar um problema clínico. “Se conseguirmos gerar mudanças reais na prática dos colegas, teremos cumprido a missão do congresso”, conclui.

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