É possível treinar habilidades auditivas? Entenda como funciona e para quem é indicado

Saúde1 hour ago

Fonoaudióloga Andréa Paz, PhD em Fonoaudiologia, explica como a avaliação orienta as atividades e por que o acompanhamento precisa considerar as dificuldades do cotidiano

Acompanhar uma explicação em sala de aula, compreender uma conversa em grupo ou distinguir palavras parecidas são situações que mobilizam habilidades auditivas. Quando uma avaliação identifica dificuldades nessas habilidades, o treinamento auditivo pode fazer parte do acompanhamento. Mas o que acontece durante esse trabalho?

As atividades podem envolver identificação de sons, reconhecimento de padrões e compreensão da fala em diferentes condições. A escolha depende dos resultados da avaliação e das necessidades de cada pessoa. O objetivo não é simplesmente acertar um jogo ou repetir palavras, mas trabalhar habilidades específicas e acompanhar sua relação com a comunicação cotidiana.

“O treinamento começa antes da primeira atividade. Precisamos entender qual é a dificuldade, em que situações ela aparece e o que a avaliação mostra. Além disso, há necessidade de ter uma escuta ativa para a queixa do paciente e de seu familiar. Estratégias que envolvam cognição, como atenção e memória são importantes. O planejamento é realizado de forma personalizada, de acordo com caso”, explica a fonoaudióloga Andréa Paz, PhD em Fonoaudiologia e especialista em transtorno do processamento auditivo central.

O que pode ser trabalhado

O processamento auditivo central envolve a maneira como o sistema nervoso auditivo analisa e dá sentido às informações sonoras. Dependendo das necessidades identificadas, o acompanhamento pode incluir atividades para distinguir características dos sons, reconhecer sua sequência ou compreender a fala na presença de informações concorrentes. “Além disso, não podemos esquecer de utilizar estratégias cognitivas, para compor o que chamo de Treinamento Auditivo Neurocognitivo” relata Andréa.

Essas tarefas podem ter diferentes formatos e níveis de dificuldade. Uma atividade aparentemente simples para quem observa pode ter um objetivo específico dentro do planejamento profissional.

“Não basta realizar um exercício. É preciso compreender por que ele foi escolhido. Duas pessoas podem realizar atividades diferentes porque apresentam necessidades diferentes, mesmo quando chegam com uma queixa ou com uma avaliação do Processamento Auditivo Central parecidas”, afirma Andréa.

Nos casos de Transtorno do Processamento Auditivo Central, há necessidade da intervenção através do treinamento auditivo neurocognitivo. Entretanto, estratégias compensatórias, orientações de comunicação e adaptações no ambiente também fazem parte do tratamento.

Como funciona uma sessão

Uma sessão pode incluir a apresentação de estímulos sonoros, respostas do paciente e ajustes na tarefa conforme seu desempenho. O profissional observa os acertos, mas também as condições em que surgem dificuldades e a necessidade de modificar a proposta.

Entre os exemplos estão atividades de reconhecimento de padrões sonoros e compreensão de palavras ou frases em condições controladas. A apresentação dos estímulos e a complexidade das tarefas precisam ser adequadas à pessoa atendida.

“Uma atividade não deve ser difícil apenas para desafiar o paciente. Ela precisa ter uma finalidade, estar dentro de um planejamento e permitir que acompanhemos o desempenho ao longo do processo”, explica a fonoaudióloga.

Uma demonstração isolada não permite diagnosticar um transtorno ou definir qual acompanhamento alguém precisa. A indicação depende de avaliação.

Qual é a relação com atenção e memória?

As tarefas de escuta não acontecem de forma isolada das demais funções. Para compreender uma orientação, por exemplo, a pessoa também precisa acompanhar a linguagem e manter informações disponíveis enquanto organiza uma resposta.

Na atuação de Andréa, o Treinamento Auditivo Neurocognitivo, chamado de TAN, combina atividades auditivas e estratégias envolvendo funções como atenção e memória.

“Considerar essas funções ajuda a olhar para as exigências da atividade e para as necessidades do paciente. Isso não significa atribuir toda dificuldade de atenção ao processamento auditivo. Precisamos compreender o que está envolvido em cada caso”, afirma.

O transtorno do processamento auditivo central, o TPAC, pode apresentar manifestações semelhantes às de outras condições. Por isso, o planejamento pode exigir diálogo com profissionais de diferentes áreas.

Exercícios na internet substituem o acompanhamento?

Jogos e atividades encontrados na internet podem despertar interesse, mas não oferecem, por si só, uma avaliação das necessidades de quem os utiliza.

Sem essa investigação, não é possível concluir se uma tarefa corresponde à dificuldade apresentada, se o nível é adequado ou se os resultados indicam uma mudança relevante.

“Acertar mais vezes um exercício não conta toda a história. Precisamos observar o que foi trabalhado, como a pessoa evoluiu e se existem mudanças nas situações que motivaram a procura por atendimento”, diz Andréa.

Não há uma sequência universal de atividades que sirva para todas as pessoas com dificuldades de escuta. A indicação e os ajustes devem considerar o acompanhamento individual.

Como saber se o trabalho está ajudando?

O monitoramento pode combinar medidas de desempenho nas atividades, reavaliações quando indicadas e relatos sobre a rotina. É importante distinguir a melhora em uma tarefa específica de mudanças mais amplas na comunicação.

Uma família pode relatar que a criança acompanha melhor determinadas orientações. Um adolescente pode descrever suas dificuldades em sala de aula. Um adulto pode trazer exemplos de situações de trabalho que continuam exigindo esforço. Essas informações ajudam a revisar os objetivos, mas precisam ser interpretadas junto dos demais dados do acompanhamento.

“O resultado que buscamos precisa fazer sentido para a vida daquela pessoa. Por isso, os objetivos devem ser claros e revistos durante o processo. Não trabalhamos com a promessa de um resultado igual para todos”, ressalta a especialista.

Família e escola também participam

Quando o paciente é uma criança ou adolescente, a comunicação com responsáveis e escola pode ajudar a compreender as demandas do cotidiano e a aplicar orientações.

Isso não significa transformar a casa em uma extensão permanente da sessão. A participação deve ser viável e orientada, considerando a rotina e as necessidades do paciente.

“Às vezes, a contribuição mais importante é ajustar a maneira de dar uma orientação, diminuir interferências no ambiente ou trazer um relato detalhado do que acontece fora do consultório”, explica Andréa.

Para quem busca atendimento, a recomendação é apresentar exemplos concretos das dificuldades e perguntar como será feita a avaliação, quais são os objetivos propostos e de que maneira a evolução será acompanhada.

O treinamento auditivo deve integrar um cuidado planejado. Compreender sua finalidade ajuda pacientes e famílias a participar do processo com expectativas realistas e informações claras.

(Crédito: iStock)

Leave a reply

Loading Next Post...
Sidebar Search
Loading

Signing-in 3 seconds...

Signing-up 3 seconds...