Golpe do falso advogado avança no país e expõe desafios para clientes, escritórios e plataformas digitais

Negócios3 hours ago

O uso de aplicativos de mensagens para aplicar golpes tem se tornado uma das principais preocupações relacionadas à segurança digital no Brasil. Entre as modalidades que mais cresceram nos últimos anos está o chamado “golpe do falso advogado”, fraude que utiliza dados públicos de processos judiciais e a identidade de profissionais da advocacia para convencer clientes a realizar pagamentos indevidos.

A dinâmica costuma seguir um padrão semelhante. Criminosos criam perfis em aplicativos como o WhatsApp utilizando a fotografia, o nome e, em alguns casos, até a identidade visual de escritórios de advocacia. Em seguida, entram em contato com clientes informando, de forma fraudulenta, que determinado processo teve decisão favorável, que um alvará foi expedido ou que existe um valor disponível para saque, condicionando a liberação ao pagamento de supostas custas processuais, taxas ou despesas administrativas.

O nível de sofisticação dessas fraudes tem chamado a atenção de especialistas. Em muitos casos, os golpistas utilizam informações verdadeiras sobre processos judiciais, aumentando a credibilidade da abordagem e dificultando a identificação do golpe pelas vítimas.

Para o advogado Ronaldo de Freitas Nunes, sócio fundador do Freitas Nunes Advocacia Estratégica, o problema ultrapassa a esfera patrimonial. Segundo ele, a prática afeta diretamente a relação de confiança que sustenta o exercício da advocacia.

“Quando alguém utiliza indevidamente a identidade de um advogado para abordar clientes, o prejuízo não se limita à eventual perda financeira. A credibilidade construída ao longo de anos também passa a ser colocada em risco”, afirma.

O tema ganhou dimensão nacional. Em maio deste ano, a Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP), em conjunto com a Polícia Civil, divulgou a prisão de integrantes de um grupo suspeito de movimentar cerca de R$ 10 milhões por meio do golpe do falso advogado. Meses antes, outra operação resultou na prisão de suspeitos investigados por utilizar informações processuais para enganar clientes em diferentes estados do país.

Além da atuação das autoridades, o assunto também chegou ao Judiciário por meio de ações envolvendo plataformas digitais. Ronaldo de Freitas Nunes é autor de uma dessas iniciativas. O advogado ajuizou ação contra o Facebook Serviços Online do Brasil Ltda., empresa responsável pela operação do WhatsApp no país, após relatar que sua identidade profissional teria sido utilizada por golpistas mesmo depois de comunicações formais à plataforma.

O processo, que tramita no 4º Juizado Especial Cível da Comarca da Capital do Rio de Janeiro sob o número 0851466-84.2026.8.19.0001, discute a responsabilidade da empresa diante de alegada demora na adoção de providências após a notificação sobre a existência de contas fraudulentas.

Segundo o advogado, a discussão não parte da premissa de responsabilização automática das plataformas por atos praticados por terceiros, mas questiona a efetividade das medidas adotadas quando há comunicação formal de uma fraude em andamento.

Nos últimos meses, decisões judiciais também passaram a enfrentar situações semelhantes. Há casos em que tribunais determinaram a suspensão de perfis fraudulentos e reconheceram o dever de indenizar em situações nas quais foi constatada omissão após a ciência da utilização indevida da identidade de advogados.

Especialistas recomendam que clientes adotem medidas simples de verificação antes de realizar qualquer pagamento relacionado a processos judiciais. Solicitações de transferência via PIX, mudanças repentinas de número de telefone, pedidos urgentes de depósito e cobranças informadas exclusivamente por aplicativos de mensagens devem ser confirmados diretamente com o escritório por meio de canais previamente conhecidos, como telefone fixo, e-mail institucional ou atendimento presencial.

Também cresce a orientação para que escritórios reforcem mecanismos preventivos, como a divulgação de canais oficiais de atendimento, avisos sobre tentativas de fraude, registro de boletins de ocorrência e comunicação imediata às plataformas quando houver uso indevido da identidade profissional.

O avanço desse tipo de crime evidencia um desafio que acompanha a expansão da comunicação digital: conciliar agilidade tecnológica com mecanismos capazes de reduzir fraudes que exploram justamente a confiança entre profissionais e seus clientes.

Em um ambiente onde informações circulam em alta velocidade e a identidade digital passou a ter valor econômico e institucional, o combate a esse tipo de fraude depende da atuação conjunta de autoridades, plataformas, entidades de classe e dos próprios usuários. A orientação permanece a mesma: diante de qualquer solicitação financeira relacionada a processos judiciais, a confirmação por canais oficiais continua sendo a principal ferramenta para evitar prejuízos.

(Fotos: Divulgação)

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